"O povo levantou-se contra o colonialismo e a negação dos seus mais elementares direitos …
Mas note: pode haver mais de uma leitura.
Repentina, a notícia atraiu a atenção mundial: o ex-general Zine el-Abidine ben Alí, que há 23 anos governava a Tunísia – no coração do Magrebe, norte de África – fugiu com a sua família para a Arábia Saudita, abalado por uma revolta popular massiva e dirigida, entre outros flagelos, contra o desemprego, a miséria e a corrupção reinantes.
Enquanto que entre os analistas internacionais, há consenso de que os ajustes neoliberais promovidos pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelo B M (Banco Mundial) nesse país africano agravou a sua situação, relatórios destes organismos dizem o contrário, como seria de esperar.
Vejamos, por exemplo, alguns fragmentos do documento intitulado “Tunísia desenvolve economia e cria emprego” , difundido recentemente pelo BM:
“A Tunísia melhorou a sua competitividade e duplicou as exportações nos decorrer dos últimos 10 anos… acelerou o crescimento económico com a ajuda de uma série de empréstimos para políticas de desenvolvimento do Banco Internacional de Reconstrução e Fomento … deverá continuar a promover o investimento privado e aumentar a produtividade, para crescer entre 6 e 7% e reduzir o desemprego. .. O Banco está comprometido com o novo modelo de crescimento do Governo e dará o seu apoio através de trabalho analítico, assistência técnica e empréstimos a politicas de desenvolvimento para os próximos anos”.
Isto é como dizer: “A Tunísia é nossa “. E não do povo, mas sim da sua oligarquia, porque a nação Magrebe esta colonizada pelas potências imperialistas, em particular pela União Europeia. Só a França tem ali instaladas 200 mil empresas, às que se ligam empresas britânicas, belgas e espanholas.
Agora, revendo atentamente, para não passar por incauta, encontra-se esta rebelião popular a ser apoiada pelos estados Unidos (?!) …. Alemanha (?!) … França (?!) Et Voilà! Já temos outra possível leitura dos acontecimentos.
O presidente Barack Obama fez um apelo a favor de eleições “livres e justas” na Tunísia e destacou “a coragem e dignidade” do seu povo, depois da queda de Ben Alí. A União Europeia pronunciou-se por uma solução democrática “duradoura” e apelou à calma.
A insurreição continuava e as forças politicas internas anunciavam um novo “Governo de unidade”, integrado por algumas figuras da oposição, embora mantendo nos seus lugares ministros chave do anterior regime.
Fontes oficiais confirmaram que nesse futuro gabinete, que tentará integrar-se em poucos dias, para de seguida convocar eleições, não participam nem partidos de esquerda, nem partidos islamitas com o objectivo – dizem – de assegurar uma transição para um regime democrático, mas de “cores moderadas”. E nesse ponto, surge uma pergunta : Como é possível um regime democrático sem as forças nacionalistas mais assinaladas?
Tenhamos em conta, que a Tunísia esteve dominada durante muitas décadas pelo império francês. Está situada num lugar invejável para o turismo europeu, área em que, junto com a pesca, representa um dos rendimentos mais importantes do país. Após tantos anos de um processo de aculturação forçado, os muçulmanos continuam a reivindicar e a combater pelas suas origens.
Um colega de memória invejável recorda-nos que a busca de governos de “cores moderadas “ resulta numa arma da tradicional panóplia imperialista. Não o vivemos já em 1962, quando quase todos os governos e chanceleres da Organização de Estados Americanos (OEA) expulsaram Cuba do seu seio porque “a sua ideologia socialista extra-continental não era compatível com o sistema democrático da América”?
Relembremos brevemente também, a estratégia ianque-ocidental que se operou na Jugoslávia contra o presidente Slodoban Milosevic há 11 anos atrás e, mais recentemente, o golpe nas Honduras e a tentativa no Equador … Algo se esta a cozinhar. E não necessariamente a fogo lento. Oxalá a Tunísia saiba ser o exemplo de África."
Por Anary Lorenzo, 21 de Janeiro de 2011 (traduzido)
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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 6 de abril de 2009
... novamente o mesmo discurso do medo e a teorização dos inimigos.
Chega a ser anedótica a questão que hoje foi levantada sobre o alegado míssil da R.P.D. da Coreia como é absurda a perseguição à intenção do Irão desenvolver um programa nuclear. Afinal quem decide quem são os bons e quem são os maus? Quem pode ser portador do armamento mais mortífero sob a ideia da protecção do mundo e quem se apresenta como seu inimigo? Não é compreensível tanto assanhamento perante uma consequência lógica da (até agora aparentemente inevitável) uni polaridade imperialista. Principalmente quando a "força" que nos tem vindo a guiar pela "luz" da verdade democrática e liberal nada argumenta perante a força militar e capacidade nuclear de estados pouco recomendáveis como Israel ou, pior ainda, o Paquistão.
Esta força arbitrária que funciona com uma lógica irracional, como uma religião que nos faz distinguir os bem e os mal intencionados do planeta, quer-nos levar a crer que a Coreia do Norte ou o Irão são menos humanos, menos civilizados, menos capazes do sentido de auto-preservação ou que não se sentem tão cobardes perante o risco de não existência. O mesmo sentimento que os ricos têm perante a miséria. Esta auto-preservação dos ricos tem-se traduzido politicamente nesta forma clássica e já gasta de sistemas económicos baseados pura e simplesmente na exclusão de muitos para a manutenção do poder e opulência de poucos. A mesma lógica se aplica aos povos que são vistos como bárbaros à luz do dogma liberal ocidental. Não interessa aqui saber, porque não é isso que está em causa, se as formas de poder de cada um destes países é a ideal. Até porque sabemos que a forma ideal de poder é precisamente aquela que está por realizar. Sabemos que o Irão tem questões pertinentes que devem ser analisadas à luz dos direitos humanos e que a ideologia Juche da Coreia do norte não é propriamente o sistema mais agradável de se viver por ter transformado a ideologia numa forma avançada de religião militarista. Mas há uma verdade que tem de ser dita. Nenhum destes países tem na sua História tantas vítimas quanto aqueles que, orgulhosamente armados de todo o tipo de armas (até de biológicas que não hesitaram a usar em algumas partes do mundo) se têm oposto ao desenvolvimento de programas nucleares por estes dois países.
Só poderia compreender uma postura desse tipo vinda de quem se propõe a promover o desarmamento progressivo de todo o planeta no que diz respeito a armas de destruição maciça. Mas esse está longe de ser o caso. Bem pelo contrário. Pelo que a União Europeia e os EUA unidos na sua aliança monolítica imperialista e auto-preservante da supremacia económica, política e moral ocidental, mantém uma espécie de modernas cruzadas contra infiéis de qualquer parte do mundo onde se ouse desafiar a verdade dessa supremacia.
Um mundo multiplar é urgente.
Esta força arbitrária que funciona com uma lógica irracional, como uma religião que nos faz distinguir os bem e os mal intencionados do planeta, quer-nos levar a crer que a Coreia do Norte ou o Irão são menos humanos, menos civilizados, menos capazes do sentido de auto-preservação ou que não se sentem tão cobardes perante o risco de não existência. O mesmo sentimento que os ricos têm perante a miséria. Esta auto-preservação dos ricos tem-se traduzido politicamente nesta forma clássica e já gasta de sistemas económicos baseados pura e simplesmente na exclusão de muitos para a manutenção do poder e opulência de poucos. A mesma lógica se aplica aos povos que são vistos como bárbaros à luz do dogma liberal ocidental. Não interessa aqui saber, porque não é isso que está em causa, se as formas de poder de cada um destes países é a ideal. Até porque sabemos que a forma ideal de poder é precisamente aquela que está por realizar. Sabemos que o Irão tem questões pertinentes que devem ser analisadas à luz dos direitos humanos e que a ideologia Juche da Coreia do norte não é propriamente o sistema mais agradável de se viver por ter transformado a ideologia numa forma avançada de religião militarista. Mas há uma verdade que tem de ser dita. Nenhum destes países tem na sua História tantas vítimas quanto aqueles que, orgulhosamente armados de todo o tipo de armas (até de biológicas que não hesitaram a usar em algumas partes do mundo) se têm oposto ao desenvolvimento de programas nucleares por estes dois países.
Só poderia compreender uma postura desse tipo vinda de quem se propõe a promover o desarmamento progressivo de todo o planeta no que diz respeito a armas de destruição maciça. Mas esse está longe de ser o caso. Bem pelo contrário. Pelo que a União Europeia e os EUA unidos na sua aliança monolítica imperialista e auto-preservante da supremacia económica, política e moral ocidental, mantém uma espécie de modernas cruzadas contra infiéis de qualquer parte do mundo onde se ouse desafiar a verdade dessa supremacia.
Um mundo multiplar é urgente.
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quarta-feira, 18 de março de 2009
A guerra contra a democracia
Um documentário interessante (embora prefira os textos do autor) de John Pilger sobre a democracia, imperialismo e libertação dos povos na sua versão pós-pós-moderna. O pós-modernismo do fim da hitória e da morte dos ideais está definitivamente enterrado.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
A irracionalidade da guerra
Nada me move contra os judeus em particular – uma vez que falar sobre guerra torna por estes dias incontornável a questão de Israel e Palestina – nem tenho qualquer animosidade para com o estado de Israel, e vejo como uma realidade importante reconhecer o seu direito à existência específica com as características que são compreensíveis num estado formado da forma como este foi.
O problema reside justamente no nascimento, na forma e não no conteúdo, uma vez que nenhum povo pode reclamar o seu direito a existir e a ter um estado ocupando e massacrando os povos que, por todas as razões possíveis são os legítimos ocupantes do território reclamado.
O estado de Israel nasceu torno e tarde ou nunca se endireitará. A vingança do povo massacrado pelo nazismo é ser ele mesmo exterminador de inimigos reais ou potenciais, acossado e estimulado por uma comunidade numerosa e imensamente rica com organizações mais ou menos formais um pouco por todo o mundo. Israel tem sido tantas vezes, a mão e os olhos do imperialismo norte americano onde representa o maior lobby em termo de quantidade de membros e de financiamento aos políticos americanos.
Na curta visita que Obama fez a Israel antes da sua eleição ele disse algo que poderá ter passado despercebido a quase toda a gente. Disse esperar ver o estado de Israel em breve com a cidade de Jerusalém como capital. Esta cidade tem um significado muito especial para as três religiões monoteístas: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Aquela frase foi tão reveladora quanto a outra que disse no seu discurso na noite da vitória eleitoral cujo conteúdo era simplesmente que os americanos iriam derrotar os seus “inimigos”.
Os ataques de Israel a Gaza foram já condenados por muitos países mas sobretudo por muitos povos. Por muita gente que, independentemente da posição que o país tenha perante a situação, resolveu manifestar-se contra esta guerra.
Israel tem o direito de se defender de ataques. Contudo o que se viu não foram ataques que justificassem, à luz do direito internacional. Não foram de todo proporcionais e não descriminaram alvos. E isto sucede porque os alvos são uma população inteira.
O resultado efectivo destas práticas de guerra imperialista é que os inimigos do Hamas estão hoje a seu lado. A nível internacional, aqueles que sempre foram contra o Hamas e a sua visão islâmica do governo da Autoridade Palestiniana em contraposição com as forças progressistas que sempre dominaram a estrutura dessa mesma débil Autoridade até à vitória eleitoral do Hamas, hoje encontram-se na posição de defensores das posições do Hamas contra essas forças progressistas e contra a postura genocída de Israel. Este país conseguiu a proeza de colocar meio mundo a defender uma organização que até há pouco tempo odiava, porque se compreende facilmente que, com o pretexto de derrubar o Hamas, o que se vai fazendo é esfaimar e atirar sobre uma população inteira.
Assim sendo, a guerra termina de qualquer forma. Sem palestinianos não há Palestina e Israel vive e os EUA mantêm a sua guarda avançada intacta, invicta e intocável pelas autoridades que vão brincando ao direito internacional quando este serve de arma política contra os inimigos do império.
O problema reside justamente no nascimento, na forma e não no conteúdo, uma vez que nenhum povo pode reclamar o seu direito a existir e a ter um estado ocupando e massacrando os povos que, por todas as razões possíveis são os legítimos ocupantes do território reclamado.
O estado de Israel nasceu torno e tarde ou nunca se endireitará. A vingança do povo massacrado pelo nazismo é ser ele mesmo exterminador de inimigos reais ou potenciais, acossado e estimulado por uma comunidade numerosa e imensamente rica com organizações mais ou menos formais um pouco por todo o mundo. Israel tem sido tantas vezes, a mão e os olhos do imperialismo norte americano onde representa o maior lobby em termo de quantidade de membros e de financiamento aos políticos americanos.
Na curta visita que Obama fez a Israel antes da sua eleição ele disse algo que poderá ter passado despercebido a quase toda a gente. Disse esperar ver o estado de Israel em breve com a cidade de Jerusalém como capital. Esta cidade tem um significado muito especial para as três religiões monoteístas: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Aquela frase foi tão reveladora quanto a outra que disse no seu discurso na noite da vitória eleitoral cujo conteúdo era simplesmente que os americanos iriam derrotar os seus “inimigos”.
Os ataques de Israel a Gaza foram já condenados por muitos países mas sobretudo por muitos povos. Por muita gente que, independentemente da posição que o país tenha perante a situação, resolveu manifestar-se contra esta guerra.
Israel tem o direito de se defender de ataques. Contudo o que se viu não foram ataques que justificassem, à luz do direito internacional. Não foram de todo proporcionais e não descriminaram alvos. E isto sucede porque os alvos são uma população inteira.
O resultado efectivo destas práticas de guerra imperialista é que os inimigos do Hamas estão hoje a seu lado. A nível internacional, aqueles que sempre foram contra o Hamas e a sua visão islâmica do governo da Autoridade Palestiniana em contraposição com as forças progressistas que sempre dominaram a estrutura dessa mesma débil Autoridade até à vitória eleitoral do Hamas, hoje encontram-se na posição de defensores das posições do Hamas contra essas forças progressistas e contra a postura genocída de Israel. Este país conseguiu a proeza de colocar meio mundo a defender uma organização que até há pouco tempo odiava, porque se compreende facilmente que, com o pretexto de derrubar o Hamas, o que se vai fazendo é esfaimar e atirar sobre uma população inteira.
Assim sendo, a guerra termina de qualquer forma. Sem palestinianos não há Palestina e Israel vive e os EUA mantêm a sua guarda avançada intacta, invicta e intocável pelas autoridades que vão brincando ao direito internacional quando este serve de arma política contra os inimigos do império.
domingo, 28 de dezembro de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Bush, o imbecil e as manobras
Já havia falado atrás nas manobras e como não existem coincidências em política. Bush está empenhado em terminar o seu mandato abrindo portas a uma demência colectiva capaz de eleger outro imbecil para a Casa Branca.
A verdade sobre a invasão georgiana à Ossétia do Sul foi obliterada da História e a Rússia desacreditada publicamente por Bush e por Rice. Na tentativa de estender a àrea de influência da NATO e assim controlar mais um pedaço da movimentação da produção energética, os EUA podem muito bem estar a inquinar a relação importante entre a Rússia e a União Europeia.
A perspectiva (sentida) e o sentimento geral dos russos penso que são muto bem sistematizados no texto que pode ser lido aqui.
A verdade sobre a invasão georgiana à Ossétia do Sul foi obliterada da História e a Rússia desacreditada publicamente por Bush e por Rice. Na tentativa de estender a àrea de influência da NATO e assim controlar mais um pedaço da movimentação da produção energética, os EUA podem muito bem estar a inquinar a relação importante entre a Rússia e a União Europeia.
A perspectiva (sentida) e o sentimento geral dos russos penso que são muto bem sistematizados no texto que pode ser lido aqui.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
As manobras – Da Georgia a McCain
George W. Bush está longe de ser um presidente popular nos EUA. Por vários motivos a população americana tem vindo a desviar-se da própria imagem que o seu presidente passa quer interna quer externamente. Contudo, e pese embora o facto de que não existem grandes diferenças entre os dois candidatos às próximas “eleições” para a Casa Branca, deu-se a necessidade de manter uma linha contínua na estratégia norte-americana perante o mundo e perante as necessidades específicas dos EUA.
Este país necessita sobretudo de um processo de guerra ininterrupto sem o qual lhe é impossível manter a estratégia da defesa das potenciais ameaças mas que também vai alimentando as indústrias ligadas ao armamento. Por outro lado, este clima de constante ameaça criado e encenado constantemente permite os avanços um pouco por todo o mundo dos peões militares americanos para posições que são do seu maior interesse. É o caso da base que está já acordada na Colômbia, de onde poderão estar em posição para intervir ainda mais directamente na Venezuela e em países próximos que estão a desviar-se do caminho pretendido pelo interesse económico e militar dos EUA. A Colômbia oferece uma plataforma de reacção aos movimentos que têm vindo a crescer para a libertação da América Latina da subserviência aos interesses dos vizinhos do norte e a consequente miséria que daí advém.
Como não existem coincidências em política, foi assinado hoje o acordo com a Polónia para a instalação de mísseis de defesa neste território. Acontece que neste mesmo dia a NATO suspendeu actividades conjuntas que haviam há muito sido planeadas com o “parceiro” estranho que é a Rússia. Este país responde na mesma moeda e mostra-se incomodado pelo avanço dos EUA para territórios onde a Rússia tem uma influência histórica notando que existe uma clara intenção de afronta.
Para justificar perante o mundo a necessidade dessas estranhas expansões do universo de influência militar e da presença física de armamento de destruição em massa e de esquemas complexos de defesa perante ameaças na Europa de leste, os EUA encontraram o aliado e as circunstâncias perfeitas. A Geórgia e o seu presidente Saakhashvili serviram bem os intentos americanos ao terem despoletado a invasão do território da Ossétia do Sul que se encontrava sob a protecção de forças de manutenção de paz russas. Saakhashvili aparece pela primeira vez nas televisões no ocidente a acusar a Rússia de uma agressão militar à Geórgia e toda a comunicação social apresenta o caso como uma agressão russa directamente à Geórgia sendo menosprezada ou mesmo totalmente ignorada a história por trás da História.
Estando ancorados no dia de hoje, ao vermos alguma comunicação social e particularmente a intervenção de Cândida Pinto na SIC Notícias (a única directamente sobre este tema) todo o tempo da reportagem recaiu sobre a população de Gori na Geórgia e as dificuldades a nível humanitário. Este é um pequeno exemplo a uma minúscula escala do que é mostrado por todo o mundo. Imagens da Ossétia do Sul depois de invadida por tropas georgianas não existem ou se existem pura e simplesmente são ignoradas. Não querendo fazer juízos de valor quanto a uma guerra onde sempre existem dois lados de culpa, o problema aqui recai sobre a forma como esta é apresentada ao mundo na mesma sequência de mentiras como a ligação do regime Taliban a Bin Laden, a ligação nunca provada deste aos supostos atentados de 11 de Setembro, a existência de armas de destruição em massa no Iraque ou mais recentemente a questão lançada da corrida ao armamento nuclear por parte do Irão quando as autoridades fiscalizadoras oficiais dizem que é falsa esta ideia. Ainda que não o fosse ao Irão teria por força de razão de ser dado o mesmo direito que foi concedido ao Paquistão ou mais recentemente à Índia pelos próprios EUA.
Saakhashvili aparece em todas as suas intervenções com a bandeira da União Europeia por trás (sem figuras de estilo e com elas). As imagens televisivas dão a impressão de que estamos a falar de um país membro da EU e que ostenta os seus símbolos com mais orgulho que alguns países membros de há muto tempo. Os EUA estendem a mão e querem a Geórgia na NATO. O mediador auto-escolhido para esta questão é Nicolas Sarkosy que apresenta uma solução que, alcançando um entendimento, secundariza a Rússia e serve os interesses dos EUA e da NATO.
Ainda hoje – para continuar a saga das não coincidências – Bush declara que “não se pode colocar em causa a integridade territorial da Geórgia” e que Ossétia do Sul e Abkhasia fazem parte dessa realidade. A Rússia é assim isolada política e mediaticamente pelo ocidente. A mesma Rússia que desde Yeltsin entrou numa dualidade de se ter transformado num país governado por máfias mas com um crescimento e com um aparecimento de fortunas obscenas em paralelo com um crescimento de miséria e de retirada de situações dadas como direitos adquiridos e conquistas sociais da era contraditória da tentativa de construção socialista. A identidade da Federação Russa de Putin não é a da URSS mas Putin e a aliança Putin – Medvedev restabelece um certo auto-reconhecimento da Rússia como potência mundial e devolve algum espírito nacionalista e patriótico ao povo russo no bom e no mau sentidos.
Para compreendermos o interesse dos EUA basta dizer que a empresa estatal russa GAZPROM é o maior exportador energético do mundo. Acontece que a Geórgia e a Ossétia do Sul estão num ponto de passagem dessa mesma energia para a Europa Ocidental. Na realidade a Europa depende mais da Rússia que dos EUA.
Apenas para enquadramento, antes destes acontecimentos, a 21 de Julho foi divulgada uma notícia que revelava a suposta intenção de instalação de uma base militar da Rússia em Cuba. Raúl Castro ignorou a notícia e apenas Fidel escreveu poucas linha sobre este tema denunciando aquilo a que designou como “estratégia de Maquiavel”, ou “ Se dizes que sim mato-te, se dizes que não mato-te na mesma…” por parte dos EUA. Durante a visita de Hugo Chávez à Rússia, imediatamente antes da passagem dele por Portugal foi lançada a ideia que havia sido acordada a instalação de uma base russa na Venezuela. Chávez, já em Portugal ridicularizou esta manipulação jornalística nada inocente.
Para completar o rol de não coincidências no dia de hoje sai em diversos meios de comunicação social americana e internacional a notícia de que, pela primeira vez o senador McCain está à frente nas sondagens para a presidência dos EUA…
Este país necessita sobretudo de um processo de guerra ininterrupto sem o qual lhe é impossível manter a estratégia da defesa das potenciais ameaças mas que também vai alimentando as indústrias ligadas ao armamento. Por outro lado, este clima de constante ameaça criado e encenado constantemente permite os avanços um pouco por todo o mundo dos peões militares americanos para posições que são do seu maior interesse. É o caso da base que está já acordada na Colômbia, de onde poderão estar em posição para intervir ainda mais directamente na Venezuela e em países próximos que estão a desviar-se do caminho pretendido pelo interesse económico e militar dos EUA. A Colômbia oferece uma plataforma de reacção aos movimentos que têm vindo a crescer para a libertação da América Latina da subserviência aos interesses dos vizinhos do norte e a consequente miséria que daí advém.
Como não existem coincidências em política, foi assinado hoje o acordo com a Polónia para a instalação de mísseis de defesa neste território. Acontece que neste mesmo dia a NATO suspendeu actividades conjuntas que haviam há muito sido planeadas com o “parceiro” estranho que é a Rússia. Este país responde na mesma moeda e mostra-se incomodado pelo avanço dos EUA para territórios onde a Rússia tem uma influência histórica notando que existe uma clara intenção de afronta.
Para justificar perante o mundo a necessidade dessas estranhas expansões do universo de influência militar e da presença física de armamento de destruição em massa e de esquemas complexos de defesa perante ameaças na Europa de leste, os EUA encontraram o aliado e as circunstâncias perfeitas. A Geórgia e o seu presidente Saakhashvili serviram bem os intentos americanos ao terem despoletado a invasão do território da Ossétia do Sul que se encontrava sob a protecção de forças de manutenção de paz russas. Saakhashvili aparece pela primeira vez nas televisões no ocidente a acusar a Rússia de uma agressão militar à Geórgia e toda a comunicação social apresenta o caso como uma agressão russa directamente à Geórgia sendo menosprezada ou mesmo totalmente ignorada a história por trás da História.
Estando ancorados no dia de hoje, ao vermos alguma comunicação social e particularmente a intervenção de Cândida Pinto na SIC Notícias (a única directamente sobre este tema) todo o tempo da reportagem recaiu sobre a população de Gori na Geórgia e as dificuldades a nível humanitário. Este é um pequeno exemplo a uma minúscula escala do que é mostrado por todo o mundo. Imagens da Ossétia do Sul depois de invadida por tropas georgianas não existem ou se existem pura e simplesmente são ignoradas. Não querendo fazer juízos de valor quanto a uma guerra onde sempre existem dois lados de culpa, o problema aqui recai sobre a forma como esta é apresentada ao mundo na mesma sequência de mentiras como a ligação do regime Taliban a Bin Laden, a ligação nunca provada deste aos supostos atentados de 11 de Setembro, a existência de armas de destruição em massa no Iraque ou mais recentemente a questão lançada da corrida ao armamento nuclear por parte do Irão quando as autoridades fiscalizadoras oficiais dizem que é falsa esta ideia. Ainda que não o fosse ao Irão teria por força de razão de ser dado o mesmo direito que foi concedido ao Paquistão ou mais recentemente à Índia pelos próprios EUA.
Saakhashvili aparece em todas as suas intervenções com a bandeira da União Europeia por trás (sem figuras de estilo e com elas). As imagens televisivas dão a impressão de que estamos a falar de um país membro da EU e que ostenta os seus símbolos com mais orgulho que alguns países membros de há muto tempo. Os EUA estendem a mão e querem a Geórgia na NATO. O mediador auto-escolhido para esta questão é Nicolas Sarkosy que apresenta uma solução que, alcançando um entendimento, secundariza a Rússia e serve os interesses dos EUA e da NATO.
Ainda hoje – para continuar a saga das não coincidências – Bush declara que “não se pode colocar em causa a integridade territorial da Geórgia” e que Ossétia do Sul e Abkhasia fazem parte dessa realidade. A Rússia é assim isolada política e mediaticamente pelo ocidente. A mesma Rússia que desde Yeltsin entrou numa dualidade de se ter transformado num país governado por máfias mas com um crescimento e com um aparecimento de fortunas obscenas em paralelo com um crescimento de miséria e de retirada de situações dadas como direitos adquiridos e conquistas sociais da era contraditória da tentativa de construção socialista. A identidade da Federação Russa de Putin não é a da URSS mas Putin e a aliança Putin – Medvedev restabelece um certo auto-reconhecimento da Rússia como potência mundial e devolve algum espírito nacionalista e patriótico ao povo russo no bom e no mau sentidos.
Para compreendermos o interesse dos EUA basta dizer que a empresa estatal russa GAZPROM é o maior exportador energético do mundo. Acontece que a Geórgia e a Ossétia do Sul estão num ponto de passagem dessa mesma energia para a Europa Ocidental. Na realidade a Europa depende mais da Rússia que dos EUA.
Apenas para enquadramento, antes destes acontecimentos, a 21 de Julho foi divulgada uma notícia que revelava a suposta intenção de instalação de uma base militar da Rússia em Cuba. Raúl Castro ignorou a notícia e apenas Fidel escreveu poucas linha sobre este tema denunciando aquilo a que designou como “estratégia de Maquiavel”, ou “ Se dizes que sim mato-te, se dizes que não mato-te na mesma…” por parte dos EUA. Durante a visita de Hugo Chávez à Rússia, imediatamente antes da passagem dele por Portugal foi lançada a ideia que havia sido acordada a instalação de uma base russa na Venezuela. Chávez, já em Portugal ridicularizou esta manipulação jornalística nada inocente.
Para completar o rol de não coincidências no dia de hoje sai em diversos meios de comunicação social americana e internacional a notícia de que, pela primeira vez o senador McCain está à frente nas sondagens para a presidência dos EUA…
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
O imperialismo psicopata de Bush
Diz este senhor que não se pode admitir que se invada um estado soberano em pleno século XXI a propósito da questão das movimentações das tropas russas em consequência da invasão da Ossétia do Sul pelo exército da Geórgia. Diz contra si mesmo que já neste século invadiu dois países soberanos, já provocou um golpe de estado (felizmente derrotado) noutro estado soberano, continua com sanções ilegais e ilegítimas contra outros estados soberanos mas um em particular e está no caminho directo para iniciar um processo bélico contra outro estado soberano usando o mesmo tipo de mentiras que antes foram usadas no Afganistão e Iraque.
Mas sobre este senhor já sabemos que é um imbecil e que sabe muito bem defender os interesses daqueles que não sendo imbecis estão atrás dele a manobrar a máquina de guerra do mundo.
Mas sobre este senhor já sabemos que é um imbecil e que sabe muito bem defender os interesses daqueles que não sendo imbecis estão atrás dele a manobrar a máquina de guerra do mundo.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Ainda a propósito de Karadzic
É evidente que não é de estranhar mas não deixa de ser algo confuso para alguém que não conhece a fundo como funcionam estas coisas do direito.Sempre pensei que houvesse muito de comum entre a nossa concepção da justiça e a concepção que se vai adoptando um pouco por essa Europa.
Talvez por isso fique a pensar no que ouvi repetidamente da boca de alguns jornalistas que chamam a Karadzic "criminoso de guerra". Se bem entendo um criminoso é alguém a quem foi atribuido um crime, cuja presunção de inocência terminou com uma decisão transitada em julgado por um tribunal competente.
A minha confusão deriva sobretudo do facto de não entender como podem os jornalistas substituir os juízes na condenação ou na inocentação seja de quem for muito mais quando se trata de um processo histórico onde de todos os lados existiram crimes de guerra. Aqui a questão está meramente no julgamento político. Estarão os jornalistas a fazer um julgamento moral e não de direito? Se estão quem lhes dá a eles o direito sobre a moral?
Não esquecer que no passado dia 6 de Agosto se cumpriram 63 anos sobre Hiroshima que matou 110 000 pessoas e mutilou ao longo dos anos muitos outros milhares. Certo é que a História não julga os vencedores, não são estes muitas vezes os portadores da moral mesmo que tentem ser os do direito. Só que mais uma vez este é por linhas tortas.
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