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terça-feira, 3 de maio de 2011

Carta de condolências ao Presidente dos Estados Unidos da América





Caro Presidente dos Estados Unidos da América, Sr. Barack Hussein Obama,

Sei que, com esta carta, venho interpretar uma dor que poucos terão sentido, mas que, estando profundamente escondida no seu íntimo e de muitos que o acompanham, não deixa de existir e de lhe causar um aperto no peito. Dor pela perda de um velho amigo e aliado que se sacrificou a uma vida de retiro tão especial em nome do estilo de vida americano que o senhor presidente tão bem personifica. Dor, pela perda de um companheiro de décadas, que ajudou o seu país na luta contra o domínio soviético no Afeganistão quando a URSS via entrar o islamismo fundamentalista pelas suas fronteiras. Financiado pela sua agência de inteligência central ajudou com os seus mujahidines a derrotar as tropas soviéticas que ousaram invadir este país estável e pacífico que viveu sempre para alimentar economicamente os seus exércitos de espiões com o dinheiro do ópio. Dor, pelo desaparecimento de um verdadeiro patriota americano ainda que disfarçado de inimigo. Aquele que, em nome dos interesses do país que o senhor tão bem representa, aceitou fazer de peão num jogo de auto-mutilação que foi aquele ao qual chamaram de atentados de 11 de Setembro de 2001 na cidade de Nova Iorque, para que uma nova ordem mundial pudesse ser finalmente estabelecida e o seu país pudesse intervir arbitrariamente em qualquer ponto do mundo sem que os outros países lhe retirassem uma legitimidade moral para tais intervenções. Dor, por aquele que levou essa legitimidade ao ponto de ser conseguido um domínio pelo seu país sobre os países com as mais importantes reservas de petróleo do mundo, e aberto as portas para futuras intervenções nos restantes. Sabemos o quão escasso é esse bem, que estamos já na fase descendente da sua extracção e que cada vez implica maiores custos consegui-lo. Dor e pesar, por aquele que, em nome do bem-estar e do modo de vida americano se sacrificou a viver em montanhas como um animal selvagem e a ser falsamente perseguido pelos seus exércitos. Dor e pesar, por aquele que terá cometido (a ser real o que o senhor presidente transmitiu como notícia) um sacrifício que cada vez menos americanos estão dispostos a fazer pelo seu próprio país, o da morte, numa altura em que esta era tão importante para si, que lhe garantirá uma reeleição, e que permitirá ao seu povo descansar em paz sob a ilusão de que tudo está bem quando acaba bem. Mas, caro presidente, morreu o mais patriota dos americanos que, não o sendo, o foi como poucos. Um árabe que dedicou toda a sua vida a servir o país do senhor presidente e a abrir caminho para o que o senhor e os seus antecessores necessitavam. Morreu um patriota para que possam continuar a queimar impunemente um quarto dos recursos naturais escassos do mundo.
Como era de se prever, a sua dor foi contida e mesmo disfarçada de contentamento e a cultura e sabedoria dos seus soldados proporcionaram ao seu velho amigo e aliado um final desejado pelo próprio provavelmente convertido ao cristianismo, uma vez que os islâmicos não se sepultam daquela forma. O senhor não iria, mesmo disfarçando tão bem, cometer um atentado à memória de um dos maiores aliados do seu país desrespeitando a sua religião. Estou certo, por aquilo que vou conhecendo de si, que nunca o faria.
Por tudo isto, a minhas mais profundas condolências pelo desaparecimento do mais patriota dos americanos não americano Osama Bin Laden. Agora está a descansar em paz na certeza de que cumpriu integralmente a missão que lhe foi entregue, se realmente for verdade a sua morte.

Com os cumprimentos de sempre.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Imagine...

Imagine que vive num país que foi invadido. Que lhe negaram durante décadas o direito a considerar sequer a hipótese de ter uma independência ou auto-determinação. O seu país deixou de poder existir porque o território foi ocupado, descontinuado e mutilado. As vias de comunicação entre as diversas partes do território foram cortadas. O leitor faz parte dos milhares de resistentes que vivem entalados entre muros que negam a sua própria sobrevivência, que sofreram massacres e perseguições ao longo destas décadas e que criaram uma imensidão de refugiados espalhados um pouco por todos os países das redondezas.

O direito internacional garante que o seu direito é igual ao de todos os outros povos que lutam por ter o seu próprio país em condições normais de estabilidade territorial e em plena soberania.

Após décadas de vergonhosa ocupação a força ocupante promete-lhe que o deixa ter acesso ao seu direito caso opte por uma soberania mutilada, sem direito a defesa e a controlo de espaço aéreo. No SEU país. No seu território. Imagine que o ocupante é uma das maiores potências militares do mundo e a quarta potência nuclear mundial.

Pode parar de imaginar pois a inimaginável proposta de acordo de Israel para a solução da questão palestiniana foi vomitada a toque de caixa do patrão de Washington. Seria uma anedota engraçada se não fosse uma História desumana.

domingo, 14 de junho de 2009

... e a vitória de Ahmadinejad!

Não nutro simpatia especial pelo Irão, muito menos pelo seu poder instituido. COntudo também nesta questão do nuclear há que ter em consideração que o Irão tem iguais direitos na investigação e uso desta tecnología.

Quando todos diziam que venceria o candidato ocidentalizado e moderado, a vitória foi para o actual presidente Mahmud Ahmadinejad. E sempre que estas coisas sucedem são logo lançadas suspeitas de fraude eleitoral.

Dessas coisas nada sei. Apenas que existe uma resistência heroica de uma esquerda mutilada neste país que deve ser observada. Sei que onde se mistura a religião com a política nunca podem daí advir coisas boas (vejamos o exemplo americano e o seu fundamentalismo cristão). A vitória não será boa para ninguém a começar no povo iraniano que nele terá votado por volta dos sessenta por cento. Contudo, há um factor positivo a ter em conta, a derrota vincada dos interesses americanos e israelitas no Irão.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A crise atinge o retalho nos EUA

A Circuit City, uma das maiores companhias retalhistas de produtos electrónicos solicitou um processo de reorganização sob o Capítulo 11 do United States Bankrupcy Code tendo já anunciado o fecho de 115 lojas das 567 que o referido grupo detém. Este processo significa de imediato o desemprego de cerca de 7300 pessoas.

Esta situação deve-se a factores que se prendem com a concorrência crescente dos grupos Best Buy e Wall Mart (O maior grupo retalhista do mundo) e à redução significativa do poder de aquisição dos americanos.

Este recuo poderá ser, com uma gestão cuidada, estratégico para manter a empresa de portas abertas especializando-se a adaptando-se a novas oportunidades. Contudo a gula de que o sistema capitalista ao estilo americano é feito remete-me para a noção clara que este será um grupo empresarial a morrer em poucos meses com todas as consequências negativas que isso pode trazer. Mesmo que seja integrado num dos maiores competidores só piora a situação pois todas as fusões implicam despedimentos e redução de vencimentos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ainda o PREC...

Vale a pena ler esta pequena pérola sobre um colóquio denominado "O PREC visto da América", organizado pela Fundação Mário Soares.

Carlos Brito prestou-se ao triste papel de responsabilizar os EUA pela derrota do PREC numa sala cheia de pessoas que ajudaram a que isso mesmo sucedesse e numa sessão de lavagem histórica negam que tenha havido qualquer intervenção.

E o texto termina com esta anedota: "O autor de "Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975", cuja pesquisa durou sete anos, considerou "arrepiante quão perto" o País esteve do "abismo", no período revolucionário, ao ponto de os Estados Unidos quererem, em Setembro de 1975, distribuir armas ao PS, o que foi "travado" pelo então secretário de Estado Henry Kissinger."

Alguém no seu prefeito juízo acredita que o Henry Kissinger, esse estratega de incontáveis manobras que provocaram muitos milhares de mortos por esse mundo (veja-se o caso do aval dado aos indonésios para a invasão de Timor Leste) tivesse sido o misericordioso travão ao banho de sangue em Portugal?

Assim se percebe qual o real papel da Fundação Mário Soares na sociedade actual portuguesa.

domingo, 2 de novembro de 2008

E há realmente uma escolha? Parte II (Os candidatos de que não se fala)

Para complementar o texto sobre as eleições americanas convém deixar um pequeno acrescento de informação que é muito importante. Num país onde o candidato favorito se deu ao luxo de gastar 6 milhões de dólares para fazer passar nos principais canais televisivos uma campanha extremamente bem elaborada em termos de marketing é fácil compreendermos em que consiste o totalitarismo norte-americano.

Mesmo com todas as restrições que impedem pequenas estruturas de lançarem candidaturas e as manterem quantos são verdadeiramente os candidatos nestas eleições? Estão muito longe desses dois que os media apresentam, mas os outros estão muito perto da total e absoluta ignorância. Assim sendo, e para que sejam pelo menos falados uma vez na blogosfera nacional aqui fica a lista de TODOS os candidatos à presidência dos EUA:

Gene Amondson/Leroy Pletten - Prohibition (Proibicionistas)

Chuck Baldwin/Darrell Castle - Constitution, Kansas Reform, Virginia Independent Green (Ultra - Liberais)

Bob Barr/Wayne Allyn Root - Libertarian (Ultra - Liberais)

Róger Calero/Alyson Kennedy - Socialist Workers (Socialistas, Trotskistas)

Charles Jay/Thomas L. Knapp - Boston Tea (Ultra – liberais)

Alan Keyes/Brian Rohrbough - Independent, America's Independent (Independente radical religioso)

Gloria La Riva/Eugene Puryear - Socialism & Liberation (Comunista, Marxista)

John McCain/Sarah Palin - Republican, New York Independence, New York Conservative (Republicano – conservador)

Cynthia McKinney/Rosa Clemente - Green (Ecologistas)

Brian Moore/Stewart Alexander - Socialist, Vermont Liberty Union (Social Democratas)

Ralph Nader/Matt Gonzalez - Independent, Independence-Ecology[5], Peace and Freedom, Michigan Natural Law, Delaware Independent, Oregon Peace, New York Populist (Liberal, ecologistas)

Barack Obama/Joe Biden - Democratic, South Carolina United Citizens, New York Working Families (Liberais)

Thomas Stevens/Alden Link - Objectivist (Ultra – Liberais)

Ted Weill/Frank McEnulty - Reform (Ultra –Liberal / Reformista)

Para que se entenda, os eleitores, que em alguns estados já votam há duas semanas, não escolhem o seu presidente. Eles apenas elegem o colégio eleitoral que designará quem será o próximo presidente. Para além disso muitas outras eleições correm em paralelo para cargos de muitas naturezas completamente diversas.

domingo, 19 de outubro de 2008

E há realmente uma escolha?

Agora que se aproximam as eleições americanas é necessário entender como funciona esta máquina de brincar às democracias e de queimar dinheiro em nome de interesses ocultos e obscuros. Muitos defendem que os EUA são uma democracia mas escondem como tudo se processa ao ponto de darem a entender ao público que os americanos realmente escolhem seja o que for no processo eleitoral para a presidência. O que se tem visto é que cada candidato do partido único com duas cabeça à direita e à extrema-direita a que decidiram estupidamente chamar de “democratas” e “republicanos” atira contra o outro todos os argumentos possíveis e imaginários de campanha suja criando a ilusão de divergência onde mais concordam. Mas a verdade é que os EUA não são o país mais importante do mundo. São um império forçado militarmente de mentiras. Começando obviamente pelo sistema político que anula as alternativas quando pretensamente é o símbolo da democracia. Se a democracia é escolher de quatro em quatro anos líderes embrenhados em campanhas milionárias, iguais entre si, que anulam a possibilidade de outras escolhas à partida então a democracia burguesa atingiu finalmente a sua última etapa, a da ditadura travestida de democracia. Viver na liberdade a mais humilhante prisão, da ignorância e da estupidez.

Para que votam então alguns americanos? Algum, porque o número de votantes é escasso tendo em conta a população do país. É fácil compreender no final deste texto porque não votam os americanos. Mas os que votam fazem-no com a consciência de que escolhem um presidente?

Os eleitores não votam para o presidente dos EUA. Em primeiro plano há que compreender que para exercerem o voto os eleitores têm de ser reconhecidos como tal. Ao contrário do que conhecemos no nosso país, nos EUA são os eleitores que têm de se registar para votar a cada acto eleitoral. Normalmente os eleitores autopropõem-se como tal através de campanhas de recrutamento pelos dois supostos partidos americanos. O eleitor pode apresentar-se ou propor-se como democrata, republicano ou independente (?) no acto do registo. O registo pode ser feito por uma infinidade de formas. Basta procurar na internet e veremos milhares de páginas com formulários que conduzem ao registo de eleitores partidários ou independentes. Em suma, para que possa votar (o que cá é considerado um direito) o cidadão americano tem de propor-se pelos seus meios tendo de partir da sua iniciativa ou do acompanhamento partidário uma vez que o eleitor se propõe como apoiante do partido democrata, republicano ou independente. Os dados deste processo anedótico de recenseamento estão disponíveis à data das eleições para que se compreendam melhor as circunscrições eleitorais. Ou seja, não exista surpresa na realidade.

Salvo raríssimas situações previstas na lei, o voto em Portugal é universal. Nos EUA existem estados onde sujeitos que estiveram presos jamais poderão votar. No entanto na maioria dos estados esse direito é negado a quem esteja preso ou sob qualquer forma de liberdade vigiada ou condicionada ou por ter um antecedente criminal de delito grave. Mais interessante é que em alguns estados procedem a uma limpeza dos registos eliminando nomes que são idênticos ou muito parecidos com nomes de condenados com crimes graves, presos ou em liberdade. Este processo é feito por empresas informáticas especializadas e próximas dos partidos do sistema e tem como objectivo reduzir ao mínimo possível os votos das minorias, nomeadamente a comunidade negra que vota tendencialmente mais pelos democratas. Nesta eleição que se aproxima a questão coloca-se mais do que nunca uma vez que pela primeira vez aparece um candidato mestiço e com fortes probabilidades de ganhar. Será por isso que se vem ouvindo crescentemente nos comícios republicanos expressões como “arranquem-lhe a cabeça” ou “matem-no!”. Sendo semelhantes entre si os candidatos nas questões principais o candidato republicano não consegue ver sequer o seu opositor como seu igual.

Não é compreensível como num país desenvolvido existem incontáveis irregularidades no processo eleitoral, com supressões deliberadas de votos, com fraude e manipulação no processo electrónico de votação e fraude constante na votação por correio. Os sistemas de votação electrónica têm vindo a substituir os métodos tradicionais. Cada estado, e dentro deste em cada condado é que decide qual o método a utilizar para o voto que pode variar entre as formas mais estranhas como por exemplo cartões perfurados.

A questão central é precisamente o objecto do voto. O presidente não é eleito pelos eleitores. Estes votam para um colégio eleitoral formado por criaturas sinistras que ninguém sabe quem são nem de onde vêm e muito menos ao que vêm e são estes que elegem o presidente. Esse colégio eleitoral de “electoral votes” ou votos eleitorais, decide quem vai ser o próximo presidente. Contudo, na grande maioria dos estados (excepção feita ao Maine e ao Nebraska onde é usado o método de Hondt) é usado a regra maioritária onde o partido com mais votos leva todos os representantes. Não existindo proporcionalidade é negada a possibilidade de existência de outras candidaturas. No entanto é mesmo esse o intuito. A bipolarização não é mais que fachada uma vez que republicanos e democratas são duas faces da mesma moeda como em qualquer sistema totalitário. Os cidadãos votam em fulanos que desconhecem e em quem acreditam estar bem depositada a sua vontade embora nada os obrigue a cumprir o sentido de voto de quem os elegeu.

A democracia tal como a devemos entender deve ser regida clareza do sistema político. Este não é nada claro. É mesmo muito sombrio. Numa época de crise, dizem mesmo a maior desde a grande depressão estão a ser disputadas as eleições mais caras de sempre. São milhões de dólares que servem para empobrecer o sistema político e que terão de ser mais tarde retribuídos a quem os financiou. O sistema está preso por milhões à grande finança para que depois, em momentos de desespero e falhanço o estado intervenha para a salvar tornando este ciclo no mais ruinoso ciclo político na história da humanidade. Este é, sem sombra de dúvida o mais podre império de todos os tempos.

Um pormenor curioso é o facto insólito de as eleições se realizarem sempre a uma terça-feira quando a grande maioria das pessoas estão a trabalhar e muitas vezes fora das suas circunscrições eleitorais. Será fácil entender as abstenções superiores a 50% e o facto de um em cada quatro americanos dizer não acreditar no sistema político do seu país? Não seria de terem em consideração um sistema de sufrágio universal? É evidente que não. Este sistema permite a manutenção automática do poder dentro do totalitarismo bicéfalo da política americana.
As campanhas eleitorais são disputadas fundamentalmente através dos meios audiovisuais pelo que representam um grande negócio para os designados “media” nas mãos das mesmas corporações que “doam” para ambas as campanhas.

E para culminar, por norma os candidatos têm vindo a tornar-se cada vez mais burros e estúpidos, mais acéfalos, mais patriotas e religiosos, mais despesistas, mais liberais ou mais conservadores. Têm-se feito rodear sempre da pior escumalha à face do planeta.

Remato os votos sinceros para a vitória de McCain pois parece-me o caminho mais curto para a destruição dos EUA enquanto império e para a sua desgraça económica e militar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O debate mais estúpido do mundo

Acerca deste segundo debate entre os dois candidatos à presidência dos EUA e segundo um dos comentadores da CNN (não sei quem porque me pareciam todos iguais) McCain prometeu pagar as casas de toda a gente e Obama prometeu cuidados de saúde para toda a gente, o que é bom para um país que se encontra falido. A expressão é dele. A realidade também.

sábado, 27 de setembro de 2008

O grande debate americano, qual o candidato mais idiota?

Não é possível descrever o que se passou esta noite no debate entre os dois candidatos à presidência dos EUA. Os homens que disputam a liderança do país mais poderoso do mundo são dois idiotas que dizem e pensam exactamente o mesmo. Muito pouco ou quase nada. O espectáculo continua e os actores estão a cumprir bem o papel para o qual estão a ser pagos.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Como se torna o capitalismo invencível?

A resposta tem vindo a ser encontrada crise após crise. A solução para o combate a cada uma das crises sistémicas (mas aparentemente conjunturais) é a aplicação de medidas aprendidas do socialismo mas invertendo o objecto. Tornando o estado numa ferramenta para manter as fortunas dos que perderam na roleta russa do azar dos mercados. Como quem controla o estado é a mesma gente que controla a economia, o capitalismo torna-se invencível e por mais incrível que possa parecer o capital continua a circular nas mesmas mãos mesmo com o sistema financeiro a colapsar.

Hoje, num dos noticiários da SIC Notícias, num pequeno debate entre Martim Cabral e João Pereira Coutinho ficou claro que a simples ideia de querer colocar em causa o sistema capitalista é como desatar a anunciar a invasão de marcianos. Os liberais acreditam religiosamente nos mercados e na forma como eles funcionam. Enquanto Martim Cabral fazia uma crítica muito leve à falta de regulação dos mercados financeiros, João Pereira Coutinho falava em algo mais devastador. Segundo ele a culpa desta crise é justamente das sucessivas intervenções estatais no sacrossanto mercado. São estas intervenções que fazem com que o mercado não funcione em pleno não existindo um verdadeiro sistema económico liberal.

Por aquilo que temos ouvido, e é preciso ter em conta que hoje o ouvimos do presidente actual dos EUA, a não intervenção do estado sobre os mercados financeiros poderia representar um desastre e potenciar uma crise internacional de proporções incalculáveis. Poderia mesmo tornar mais credível a anúncio da invasão dos marcianos ou do fim do determinismo capitalista. Claro que Bush não ouviu a sábia intervenção de Pereira Coutinho na SIC Notícias senão teria imediatamente parado com o plano mega milionário de salvação financeira porque isso, segundo aquele comentador só estraga o capitalismo. Acontece que estas intervenções aparentemente socializantes são exactamente a salvação do sistema.

Os milionários de Wall Street podem sempre estar certos que, independentemente do mal que fizerem e do parasitarismo económico que espalharem no mundo, a mão contraditoriamente socializante do estado irá salvar as suas fortunas roubando dos contribuintes em geral. E algum tempo mais tarde, por pouco mais que nada devolverá à iniciativa privada as empresas salvas de dívidas para que novamente sejam entregues às lógicas do mercado que as destruiu.

Quanto aos que não conseguiram pagar as suas casas e viram os seus bens penhorados são apenas danos colaterais neste ciclo vicioso de invencibilidade do capitalismo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As falsificações da História e as mentiras do petróleo

Assistimos durante alguns meses a uma escalada do preço do petróleo. Foi justificado o aumento dos preços com o aumento da procura principalmente por parte dos países cujas economias são emergentes como a China ou a Índia numa explicação de uma simplicidade que pertence aos níveis básicos do entendimento de como funciona um mercado. No entanto esse mesmo mercado parece ter sofrido alguns fortes abalos que direccionaram aquele que é suposto ser um bem altamente escasso e em vias de atingir aquilo a que designam como “pico” para uma descida para níveis novamente abaixo dos 100 dólares.

Esse mesmo mercado ditou, pelas mesmas vias especulativas o rebentar de instituições insufladas com falsos valores e que viram a sua situação chegar aos limites insuportáveis de insolvência ou piedade nacionalizadora. O mesmo mercado que insuflou o valor do dinheiro a da suposição do cheiro do dinheiro é aquele que se vê brigado a deixar cair os frutos da sua mesma contradição ou então levá-la ao extremo da nacionalização dos prejuízos insanos do criados pela loucura gananciosa do capital privado.

De um modo muito resumido o estado Norte-americano está a assumir as custas da irresponsabilidade e da loucura especulativa do mercado de capitais lançando para os contribuintes a obrigação de financiar pelos seus impostos as falências dos bancos privados. É de tal forma insustentável que já não foi possível tomar uma atitude proteccionista para a Lehman Brothers como fora antes tomada para outras instituições de muito maior porte.

As medidas de protecção nunca visaram as principais vítimas deste processo. Os tomadores de empréstimos sobre-valorizados ou sobre-avaliados não viram quaisquer medidas que lhes permitisse sair da situação de insolvência pessoal ou familiar. Por outro lado os bens imóveis têm um valor ridiculamente mais baixo e mesmo assim sendo não são vendidos. Existe um excesso de oferta e o valor dos imóveis não chega para cobrir o valor das hipotecas. Parece que podemos encontrar algum paralelo na atitude de facilitismo dos bancos portugueses na concessão de créditos à habitação com avaliações por cima e com concessão de créditos sobre créditos para outros bens associados. No mercado português as casas usadas também têm vindo a desvalorizar. Será um sinal a ter em conta na economia nacional?

Mesmo quando a mentira sobre a questão petrolífera - que assim mesmo ainda não pressionou os governantes do mundo a investirem em fontes alternativas e renováveis de energia nomeadamente para o sector dos transportes – parece ter sido mais uma vez atirada para o campo das explicações racionais no campo da ciência económica assistimos a uma necessidade crónica de que o preço deste tão cobiçado produto desça nos mercados internacionais. Necessidade evidente puxada a ferros aos principais interventores nas movimentações especulativas no mercado petrolífero. Interventores esses que são precisamente os mesmos que vão caindo que nem baralhos de cartas por causa de outras manobras arriscadas neste mercado global. A descida do preço do crude está presente como mais uma cena de mais um capítulo para a manobra de manutenção no poder dos Republicanos nos EUA.

A manobra consiste em manter a sensação de algum controlo económico num factor que é fundamental para os americanos, tão fundamental que é o motivo para terem encenado a falsificação sistemática do 11 de Setembro, a intervenção no Afeganistão, a perseguição à sua protegida e financiada Al Qaeda, a intervenção no Iraque, as intervenções em background na Bolívia e na Venezuela para desestabilização ou mesmo separatismo, a encenação das manobras na Ossétia do Sul contra a Rússia pelo controlo dos pipelines existentes e programados.

É pertinente que se questione toda esta questão em torno do petróleo porquanto não cessa (antes pelo contrário) a pesquisa por novos pontos de extracção. O Brasil, por exemplo, já se tornou auto-suficiente e mesmo exportador. Por outro lado, depois deste abanão o consumo reduziu mesmo contando com a procura dos mercados emergentes, o que demonstra que, com uma racionalização e uma aposta na investigação de alternativas viáveis o “pico petrolífero” não resulta num problema de maior. As alternativas ensaiadas revelaram-se desastrosas e mesmo obscenas se tivermos em conta as soluções dos agro combustíveis.

As contradições do mercado tornam-se cada vez mais ridículas. Enquanto o estado americano financia a EXXON em Portugal e Galp é presenteada com perdões fiscais através de manobras contabilísticas que transformam o que pretendia ser uma taxa sobre mais-valias num benefício em altura de descida do preço da matéria-prima. O preço do crude tem vindo a descer contudo os preços do produto refinado nos revendedores de combustíveis não tem sentido essa mesma descida e as entidades reguladoras olham para o lado.

Se a História se repetir teremos daqui a dois anos McCain como presidente dos EUA. O Irão terá sido já “intervencionado” que é como quem diz invadido. A Venezuela terá um novo presidente. Hugo Chávez irá morrer com uma bala perdida ou com um golpe de estado. Morales na Bolívia retirar-se-á da política ou será também ele abatido. A Geórgia fará parte da NATO e a Rússia terá de novo a sua força militar direccionada para a próxima Europa cliente e adversária no tabuleiro de uma política incompreensível. O petróleo poderá subir de novo para valores bem mais elevados desta vez. A EU terá a sua constituição aprovada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

As manobras – Da Georgia a McCain

George W. Bush está longe de ser um presidente popular nos EUA. Por vários motivos a população americana tem vindo a desviar-se da própria imagem que o seu presidente passa quer interna quer externamente. Contudo, e pese embora o facto de que não existem grandes diferenças entre os dois candidatos às próximas “eleições” para a Casa Branca, deu-se a necessidade de manter uma linha contínua na estratégia norte-americana perante o mundo e perante as necessidades específicas dos EUA.

Este país necessita sobretudo de um processo de guerra ininterrupto sem o qual lhe é impossível manter a estratégia da defesa das potenciais ameaças mas que também vai alimentando as indústrias ligadas ao armamento. Por outro lado, este clima de constante ameaça criado e encenado constantemente permite os avanços um pouco por todo o mundo dos peões militares americanos para posições que são do seu maior interesse. É o caso da base que está já acordada na Colômbia, de onde poderão estar em posição para intervir ainda mais directamente na Venezuela e em países próximos que estão a desviar-se do caminho pretendido pelo interesse económico e militar dos EUA. A Colômbia oferece uma plataforma de reacção aos movimentos que têm vindo a crescer para a libertação da América Latina da subserviência aos interesses dos vizinhos do norte e a consequente miséria que daí advém.

Como não existem coincidências em política, foi assinado hoje o acordo com a Polónia para a instalação de mísseis de defesa neste território. Acontece que neste mesmo dia a NATO suspendeu actividades conjuntas que haviam há muito sido planeadas com o “parceiro” estranho que é a Rússia. Este país responde na mesma moeda e mostra-se incomodado pelo avanço dos EUA para territórios onde a Rússia tem uma influência histórica notando que existe uma clara intenção de afronta.

Para justificar perante o mundo a necessidade dessas estranhas expansões do universo de influência militar e da presença física de armamento de destruição em massa e de esquemas complexos de defesa perante ameaças na Europa de leste, os EUA encontraram o aliado e as circunstâncias perfeitas. A Geórgia e o seu presidente Saakhashvili serviram bem os intentos americanos ao terem despoletado a invasão do território da Ossétia do Sul que se encontrava sob a protecção de forças de manutenção de paz russas. Saakhashvili aparece pela primeira vez nas televisões no ocidente a acusar a Rússia de uma agressão militar à Geórgia e toda a comunicação social apresenta o caso como uma agressão russa directamente à Geórgia sendo menosprezada ou mesmo totalmente ignorada a história por trás da História.

Estando ancorados no dia de hoje, ao vermos alguma comunicação social e particularmente a intervenção de Cândida Pinto na SIC Notícias (a única directamente sobre este tema) todo o tempo da reportagem recaiu sobre a população de Gori na Geórgia e as dificuldades a nível humanitário. Este é um pequeno exemplo a uma minúscula escala do que é mostrado por todo o mundo. Imagens da Ossétia do Sul depois de invadida por tropas georgianas não existem ou se existem pura e simplesmente são ignoradas. Não querendo fazer juízos de valor quanto a uma guerra onde sempre existem dois lados de culpa, o problema aqui recai sobre a forma como esta é apresentada ao mundo na mesma sequência de mentiras como a ligação do regime Taliban a Bin Laden, a ligação nunca provada deste aos supostos atentados de 11 de Setembro, a existência de armas de destruição em massa no Iraque ou mais recentemente a questão lançada da corrida ao armamento nuclear por parte do Irão quando as autoridades fiscalizadoras oficiais dizem que é falsa esta ideia. Ainda que não o fosse ao Irão teria por força de razão de ser dado o mesmo direito que foi concedido ao Paquistão ou mais recentemente à Índia pelos próprios EUA.

Saakhashvili aparece em todas as suas intervenções com a bandeira da União Europeia por trás (sem figuras de estilo e com elas). As imagens televisivas dão a impressão de que estamos a falar de um país membro da EU e que ostenta os seus símbolos com mais orgulho que alguns países membros de há muto tempo. Os EUA estendem a mão e querem a Geórgia na NATO. O mediador auto-escolhido para esta questão é Nicolas Sarkosy que apresenta uma solução que, alcançando um entendimento, secundariza a Rússia e serve os interesses dos EUA e da NATO.

Ainda hoje – para continuar a saga das não coincidências – Bush declara que “não se pode colocar em causa a integridade territorial da Geórgia” e que Ossétia do Sul e Abkhasia fazem parte dessa realidade. A Rússia é assim isolada política e mediaticamente pelo ocidente. A mesma Rússia que desde Yeltsin entrou numa dualidade de se ter transformado num país governado por máfias mas com um crescimento e com um aparecimento de fortunas obscenas em paralelo com um crescimento de miséria e de retirada de situações dadas como direitos adquiridos e conquistas sociais da era contraditória da tentativa de construção socialista. A identidade da Federação Russa de Putin não é a da URSS mas Putin e a aliança Putin – Medvedev restabelece um certo auto-reconhecimento da Rússia como potência mundial e devolve algum espírito nacionalista e patriótico ao povo russo no bom e no mau sentidos.

Para compreendermos o interesse dos EUA basta dizer que a empresa estatal russa GAZPROM é o maior exportador energético do mundo. Acontece que a Geórgia e a Ossétia do Sul estão num ponto de passagem dessa mesma energia para a Europa Ocidental. Na realidade a Europa depende mais da Rússia que dos EUA.

Apenas para enquadramento, antes destes acontecimentos, a 21 de Julho foi divulgada uma notícia que revelava a suposta intenção de instalação de uma base militar da Rússia em Cuba. Raúl Castro ignorou a notícia e apenas Fidel escreveu poucas linha sobre este tema denunciando aquilo a que designou como “estratégia de Maquiavel”, ou “ Se dizes que sim mato-te, se dizes que não mato-te na mesma…” por parte dos EUA. Durante a visita de Hugo Chávez à Rússia, imediatamente antes da passagem dele por Portugal foi lançada a ideia que havia sido acordada a instalação de uma base russa na Venezuela. Chávez, já em Portugal ridicularizou esta manipulação jornalística nada inocente.

Para completar o rol de não coincidências no dia de hoje sai em diversos meios de comunicação social americana e internacional a notícia de que, pela primeira vez o senador McCain está à frente nas sondagens para a presidência dos EUA…